Viagem Literária

Apenas uma maneira de despejar em algum lugar todas aquelas palavras que teimam em continuar saindo de mim diariamente.

Name: Silvio Pilau
Location: Porto Alegre, RS, Brazil

Um gaúcho pacato, bem-humorado e que curte escrever algumas bobagens e algumas coisas sérias de vez em quando. Devorador voraz de livros e cinéfilo assumido. O resto não interessa, ao menos por enquanto.

Thursday, November 12, 2009

OS FANTASMAS DE SCROOGE


OS FANTASMAS DE SCROOGE (A CHRISTMAS CAROL)
De Robert Zemeckis. Com as vozes de Jim Carrey, Gary Oldman, Robin Wright Penn e Cary Elwes.


Há aproximadamente dois anos, após assistir A Lenda de Beowulf, escrevi as seguintes palavras sobre o filme: “A impressão que fica é a de que Zemeckis parece uma criança feliz com seu novo brinquedo, disposta a utilizá-lo até gastar. (...) A Lenda de Beowulf não é um ruim, mas o resultado serve como aviso ao cineasta: se continuar insistindo na brincadeira, pode acabar tendo que brincar sozinho.”

O brinquedo em questão era a chamada “captura de performance”, nova tecnologia que aproveita as próprias expressões dos atores para desenvolver uma animação digital. Antes do filme já citado, Robert Zemeckis também utilizara a novidade em O Expresso Polar. Justiça seja feita, ambas as produções estavam longe de poderem ser consideradas fracas, porém jamais atingiam a qualidade que Zemeckis apresentou em alguns de seus trabalhos tradicionais, mais especificamente De Volta para o Futuro, Forrest Gump – O Contador de Histórias e Contato.

Mesmo com a recepção morna aos seus dois últimos esforços, Zemeckis optou por continuar brincando com a tecnologia. Seu novo filme, Os Fantasmas de Scrooge, é uma adaptação de Um Conto de Natal, a clássica história de Charles Dickens, através dessa ferramenta. Para quem não conhece, o enredo conta a história de Ebenezer Scrooge, um velho ranzinza que passou a sua vida juntando fortuna e desprezando qualquer contato com as pessoas. Em uma noite de Natal, ele recebe a visita de três fantasmas, que o apresentam a visões do passado, presente e futuro, levando-o a reavaliar sua própria vida.

O primeiro fato importante a ser lembrado é que a história de Dickens já recebeu dezenas (se não centenas) de adaptações. É um dos contos mais lidos e lembrados de todos os tempos. Segundo o IMDB, as versões cinematográficas da jornada de Scrooge tiveram início em 1901; desde então, praticamente todas as décadas foram agraciadas com alguma revisitação da obra, passando pelos mais diversos gêneros. A mais recente versão ocorreu ainda este ano, com o desastroso Minhas Adoráveis Ex-Namoradas.

Como, então, transformar uma história tão querida e conhecida em algo novo para o público? Robert Zemeckis optou pela animação com a “performance de captura”. De certa forma, sua escolha foi correta. Ninguém jamais assistiu uma versão da obra de Dickens com tamanho esplendor visual como em Os Fantasmas de Scrooge. A tecnologia demonstra claras evoluções em relação ao que foi feito em O Expresso Polar e A Lenda de Beowulf: é fascinante acompanhar em detalhes todas as rugas do rosto de Scrooge ou a fantástica iluminação proveniente das velas, por exemplo. Da mesma forma, os cenários criados pela equipe de Zemeckis são exuberantes e ricos em detalhes, com a beleza realçada pelo 3-D – bem aproveitado, por sinal, e não utilizado como mero recurso por si só.

O que também contribui para fazer de Os Fantasmas de Scrooge um verdadeiro espetáculo para os olhos é a própria habilidade do diretor. Zemeckis sabe como construir planos inspirados e repletos de elegância, aproveitando ao máximo a beleza proveniente do CGI. Cenas como a de Scrooge saindo da neblina para chegar em casa ou a do mesmo personagem visto na sombra de um relógio demonstram a capacidade do cineasta para compor um quadro visualmente irrepreensível, comprovando toda a capacidade técnica não somente de Zemeckis, mas também de toda a sua equipe.

Infelizmente, se acerta nessas questões, Zemeckis peca na narrativa, jamais encontrando o tom de seu filme. O clássico de Dickens se tornou atemporal por ser capaz de falar com pessoas de qualquer idade e de qualquer época, mas as opções do cineasta acabam fazendo com que a obra não consiga se adequar a qualquer público. Em certos momentos, Os Fantasmas de Scrooge parece um videogame, com cenas de ação desnecessárias construídas com o único objetivo de atrair o público infantil pela velocidade e apelo visual, como aquela na qual Scrooge reduz de tamanho. Por outro lado, o filme traz trechos sombrios, com imagens que podem impressionar os mais novos, além de ter um ritmo devagar, principalmente em seus primeiros instantes.

A principal falha de Os Fantasmas de Scrooge, porém, é jamais fazer a plateia acreditar totalmente na transformação do personagem. O núcleo da história de Dickens sempre foi a jornada de Ebenezer Scrooge, que começa a obra como um velho casmurro e termina como um homem generoso. Zemeckis parece tão embasbacado com a tecnologia que perde um pouco a noção do que importa. A mudança de Scrooge não é realizada de forma gradual e, portanto, torna-se pouco crível. Na verdade, o personagem parece encontrar a sua redenção logo na aparição do primeiro fantasma, o que enfraquece a sua jornada.

Dessa forma, o filme acaba sendo estéril em termos emocionais. Toda a criatividade e capacidade técnica vistas na questão visual não encontram paralelo em termos dramáticos. Os Fantasmas de Scrooge não deixa de ser uma realização impressionante e, a certo ponto, importante, por mostrar a evolução tecnológica dos efeitos digitais. É uma pena, porém, que fique no meio do caminho no que realmente importa: a história e os personagens, coração do clássico de Charles Dickens.

Será que desta vez Robert Zemeckis aprendeu a lição?

Nota: 5.0

Wednesday, November 04, 2009

A motivação - Parte 1

1.

Enquanto caminhava em direção ao palco, ouvindo o aplauso das quase trezentas pessoas presentes no salão, Tomas Berger se deu conta de como tudo aquilo não tinha mais graça. Àquela altura, sua coleção de prêmios era tão grande que até mesmo os colegas que agora o aplaudiam já deviam estar cansados disso.

Em seus quase quarenta anos de carreira, Tomas construiu a reputação de ser o publicitário mais brilhante de sua geração. Antes dos vinte anos, já era reconhecido em todo o mercado como um criativo à frente de seu tempo, capaz de desenvolver campanhas especiais, que falavam com o público de uma forma diferenciada e única.

Agora subia ao palco para receber mais um prêmio como o melhor publicitário do ano. Era seu sétimo troféu da categoria, mais um para se juntar à estante mais do que abarrotada que possuía em casa.

No campo profissional, Tomas Berger jamais falhara. Tal qual um advogado que nunca perdeu um caso, todas as suas campanhas atingiam os objetivos: geravam lucro para o cliente e, com um pouco de sorte, tornavam-se parte da cultura da sociedade. Tomas era único e sabia disso.

- Como agradecer esse prêmio sem me tornar repetitivo? – começou seu discurso, sem qualquer falsa modéstia.

Para ele, estes momentos de agradecimento já eram automáticos. Fazia-os quase sem pensar. Era como escovar os dentes ou amarrar os cadarços. Executava-os pensando em outras coisas. No momento, voltava a pensar em como tudo aquilo não o empolgava mais.

Como publicitário, Tomas sabia que já conquistara tudo o que poderia conquistar. Era dono de uma das maiores agências do país. Circulara o mundo dando palestras e mostrando seu trabalho. Colecionava prêmios em diversos festivais. Tomas Berger era o primeiro nome que qualquer um pensava quando se falava em publicidade.

Para ele, no momento, estar ali era mais do mesmo. Nada mais havia a alcançar. Tomas precisava de um incentivo. Precisava de algo novo que fosse capaz de motivá-lo. Precisava de um desafio.

E ele estava por vir pelas mãos de Rogério Silva.

A motivação - Parte 2

2.

Na manhã seguinte, Tomas Berger estava cansado. A festa do prêmio havia se alongado e os drinques se excederam, como de hábito. Tomas dormira pouco e chegara na agência mais tarde que o usual.

Tinha recém começado a ler seus e-mails quando o telefone da mesa tocou:

- Sr. Berger – era Joana, sua secretária. – Tenho uma ligação aqui de um senhor chamado Rogério Silva. Posso passar?

- Rogério Silva? – Tomas perguntou, sem reconhecer o nome. – De onde ele é?

- Ele não quis informar. Apenas disse que precisa do melhor profissional da área e que ficou sabendo que o senhor é o melhor.

Tomas não se impressionava quando outros o diziam que era o melhor, até porque já sabia que o era. Mas ficou admirado com a objetividade do tal Rogério. Disse:

- Nisso ele está certo. Passe para mim.

- Sim, senhor.

Aproveitou os poucos segundos para tossir e limpar a garganta. Assim que ouviu o clique, falou.

- Sr. Rogério Silva, aqui é Tomas Berger. Em que posso ajudá-lo?

- É Tomas Berger de verdade ou algum assistente? Quero falar com Tomas Berger e nenhum outro.

- Pode ficar tranquilo que, até onde lembro, eu sou o verdadeiro Tomas Berger. Em que posso ajudá-lo?

- Sr. Berger, preciso dos seus serviços pra divulgar o meu negócio.

- Entendo. E que tipo de negócio o senhor possui?

- Prefiro explicar para o senhor pessoalmente. Mas posso dizer que é um ramo novo, ainda não explorado.

Tomas já falara centenas, talvez até milhares de vezes, com possíveis clientes que solicitavam seu trabalho. Sua reputação de Midas fazia com que muitos o buscassem para alcançar o sucesso. Por isso, essa conversa repleta de mistérios apenas o entediava. Prometera a si mesmo não assumir compromissos com clientes despreparados e, até onde ele sabia, Rogério Silva poderia ser mais um deles.

- Sr. Silva, o senhor deve saber quem eu sou e, consequentemente, também deve ter a consciência de que sou um homem ocupado. Não posso ficar perdendo meu tempo com joguinhos. Se o senhor quer meus serviços, afirmo que preciso compreender a natureza do seu negócio agora mesmo.

A reprimenda pareceu surtir efeito do outro lado da linha. Por alguns instantes, Tomas nada ouviu do outro lado da linha exceto o silêncio e Rogério Silva respirando. Então, finalmente, o homem falou.

- Sua condição é justa. Eu preciso do homem mais capaz em todo o seu ramo e, pela minha pesquisa, tenho a certeza de que o senhor é o melhor. Sei que o seu tempo deve ser curto e por isso peço desculpas por não revelar o que faço neste momento. Mas preciso que me entenda. Não posso explicar pelo telefone. Somente o que posso informar, agora, é que se trata de um novo campo de atuação, no qual acredito ser um pioneiro. Tenho dinheiro, um bom dinheiro, que certamente será acima daquilo que a maioria dos seus clientes pagam. Porém, tenho certeza de que apenas isso não fará com que o senhor aceite me encontrar. O que fará isso é o desafio. Um homem criativo e vencedor como o senhor deve ser movido a desafios. Pois afirmo agora que o que tenho a oferecer é um verdadeiro desafio. Talvez o maior de sua vida. Pode não ser um desafio sobre o qual o mercado ficará sabendo e, certamente, não é um desafio que renderá mais prêmios à sua estante, mas é algo que, garanto, oferecerá a novidade que falta à sua já vitoriosa carreira.

Foi a vez de Tomas ficar calado. Os argumentos de Rogério Silva conseguiram massagear o imenso ego do publicitário, que ainda se sentia seduzido pelo mistério que aquele homem oferecia. Pensava se esse desconhecido seria capaz de proporcionar o desafio que buscava.

Tomas refletiu por alguns instantes, enquanto Rogério Silva aguardava. Depois, disse, com firmeza:

- Sr. Silva, onde e quando iremos nos encontrar?

A motivação - Parte 3

3.

O Canto do Mundo ficava em uma rua pouco movimentada da cidade, especialmente à noite. Durante o dia, o restaurante era freqüentado por executivos em busca de um espaço tranquilo para almoços de negócios e, à noite, por casais querendo discrição.

Tomas Berger jamais havia estado lá, mas ouvira falar no local. Chegou vinte minutos antes das nove horas da noite, horário combinado para o encontro com Rogério Silva. Tomas preferiu chegar com antecedência para refletir um pouco sobre tudo aquilo, ainda tentando adivinhar qual seria o misterioso campo de atuação do possível futuro cliente.

O relógio prateado em seu pulso marcava exatamente nove horas quando entrou pela porta do restaurante um homem grande e bem vestido. Deveria ter quase dois metros de altura, escondidos sob um sobretudo negro que cobria todo o corpo. Era branco, cabelo preto e bem penteado e, apesar da elegância, parecia ameaçador.

Tomas percebeu que se tratava de Rogério assim que ele veio em sua direção.

- É um prazer conhece-lo, sr. Berger – disse o homem, esticando a mão, sem mais cerimônia.

Tomas a apertou, sentindo a força do homem.

- O prazer é meu, sr. Silva.

Enquanto se acomodavam, Tomas descobriu que estava nervoso. Isso era raro em sua vida. A autoconfiança sempre fora uma de suas maiores qualidades e não era qualquer pessoa que conseguia intimidá-lo. Agora, diante daquele homem sério e, de certa forma, ameaçador, Tomas não se sentia no controle da situação. Talvez por isso, esperou que Rogério falasse primeiro.

- Bom, sr. Berger, não posso me estender – começou. – Vamos ser objetivos. Como falei em nossa conversa pelo telefone, preciso dos seus serviços. Necessito de divulgação daquilo que faço, porém, como você saberá em poucos minutos, minha área não pode ser promovida como as outras às quais você está acostumado.

Rogério Silva parou de falar quando o garçom se aproximou. Pediu apenas uma água, enquanto Tomas nada quis.

- Preciso do melhor – prosseguiu Rogério. – Preciso do melhor porque será necessário buscar alguma forma de divulgação alternativa. Novos canais, novas mídias, essas coisas que você sabe melhor que eu. Preciso do melhor e ouvi dizer que o melhor é você. Estou certo?

- Está – Tomas respondeu. – Mas, para isso...

Rogério ergueu a mão, interrompendo-o.

- Deixe-me terminar, por favor.

Apesar da interrupção, Rogério transparecia educação. O garçom trouxe a água e ele tomou um gole antes de prosseguir.

- Você quer saber o que eu faço – disse.

- Sim – Tomas concordou.

Rogério olhou rapidamente em volta. Parecia estar avaliando as pessoas em torno, para descobrir se algum deles tentava ouvir a conversa. Certo de que isso não ocorria, falou, de forma calma:

- Sr. Berger, eu mato pessoas.

A motivação - Parte 4

4.

Não importava o que os outros pensassem, Rogério não se considerava um assassino. Sim, ele tirava vidas de outros seres humanos, mas jamais contra a vontade deles. Fazia somente quando solicitado. Fazia pura e simplesmente porque pediam.

Sempre que refletia sobre sua profissão, Rogério gostava de se considerar um “Auxiliador Terminal”. Sentia orgulho dessa definição, criada por ele próprio. Ele não era um assassino de aluguel. Não era um psicopata. Rogério apenas matava aquelas pessoas que queriam se matar, mas não tinham coragem. Nada mais do que um ofício.

Era um campo de atuação novo. Jamais ouvira falar de alguém que trabalhasse com isso. Seu último serviço, por exemplo, foi de uma senhora da terceira idade que não aguentava mais viver sozinha após a morte dos filhos e do marido. Rogério ouviu sobre o caso na fila do supermercado e entrou em contato com a idosa, para apresentar seu trabalho. Ela se interessou e o contratou.

Rogério a matou com dois tiros na testa.

A profissão, porém, tinha seus problemas. Não era o peso na consciência. Rogério era desprovido disso. Não chegava a sentir prazer, mas também não se extasiava ao matar. Sempre repetia uma frase de Michael Corleone no instante anterior ao liquidar seus clientes. Era uma frase que acreditava resumir o seu trabalho:

- São apenas negócios, nada pessoal.

Não, a consciência não era o problema. O grande empecilho que impedia a carreira de Rogério deslanchar era o fato de ser uma profissão ilegal. Secreta. Não era possível divulgar seu trabalho nos classificados de algum jornal: “Quer se matar? Pergunte-me como!” Da mesma forma, também não podia contar com a promoção boca-a-boca – até porque as bocas de seus clientes estavam cheias de vermes.

Apesar de ser um homem inteligente, Rogério não conseguiu chegar a qualquer solução sobre esse empecilho. Sabia que precisava fazer publicidade. Necessitava divulgar seus serviços, fazer com que as pessoas o procurassem. Mas não foi capaz de descobrir como fazer isso sem chamar a atenção da lei.

Precisava de ajuda. Precisava de alguém conhecedor do assunto, capaz de criar novas formas de se vender. Precisava de um publicitário de reconhecida qualidade. Do melhor de todos.

Precisava de Tomas Berger.

A motivação - Parte 5

5.

Quando Tomas ficou sabendo que estava sentado em um restaurante com um assassino, sua primeira reação não foi de susto, mas incredulidade. Rogério não poderia estar falando sério. Alguém que tira a vida de outras pessoas não marca uma reunião com um publicitário para ele divulgue os serviços letais. A situação toda não fazia lógica.

Então, lembrou-se que Rogério havia dito que era um campo de atuação novo. O homem à sua frente, se fosse mesmo um assassino, não era um assassino comum. Deveria haver algo de diferente nele.

Enquanto Tomas absorvia a informação, Rogério permaneceu em silêncio. Parecia sentir prazer em provocar esse tipo de reação e, no momento, saboreava a expressão que surgiu no rosto de Tomas quando falou sobre sua profissão.

- Isso é verdade? – indagou o publicitário, ainda incrédulo.

- Sim, é verdade – Rogério aquiesceu. – Ganho a vida tirando a vida de outros seres humanos.

Permaneceram alguns segundos em silêncio. Tomas olhava diretamente para o rosto de Rogério, tentando descobrir algum sinal de que aquilo era mentira. Não encontrou, o que fez seu estômago gelar.

- Sr. Berger, não se preocupe – disse Rogério, como se estivesse lendo os pensamentos de Tomas. – Não tenho a menor intenção de causar mal a você, até porque preciso dos seus serviços.

Rogério nada disse por alguns instantes, esperando Tomas se acalmar.

- Posso prosseguir? – perguntou, finalmente.

Tomas fez um sinal afirmativo com a cabeça.

- Muito bem. Por favor, não me interrompa antes de terminar. Como eu disse, eu mato pessoas. De certa forma, sou um assassino, apesar de não me considerar um. Sim, eu tiro a vida de seres humanos, mas apenas com o consentimento deles. “Como?”, você deve estar se perguntando. Sr. Berger, eu só mato pessoas que têm o desejo de se matar. Apenas isso. Jamais assassinei alguém que não gostaria de morrer. O senhor vê, existem muitas, muitas pessoas que não suportam mais a existência nesse mundo, mas não possuem a coragem de tirar a própria vida. Eu proporciono isso a elas. Eu alivio o sofrimento de meus clientes. Gosto de me considerar um Auxiliador Terminal. Apenas isso.

Rogério parou para tomar um gole da água. Em seguida, prosseguiu:

- E aí mora o meu problema. Preciso divulgar o meu serviço de uma forma que não me coloque em complicações com a lei. Não posso botar um anúncio no jornal de domingo ou um outdoor na rua. Preciso de alternativas, preciso de outros caminhos e outras formas de chegar até essas pessoas. Já fiz um bom número de trabalhos, mas não tantos quanto poderia fazer. Por isso chamei você.

Mais do que em silêncio, Tomas estava estático. Ouviu tudo o que Rogério disse, mas não sabia como reagir. Não sabia o que dizer.

Foi Rogério quem falou mais uma vez, encerrando seu discurso:

- Acredito que seja o desafio que falta para um publicitário consagrado como você.

Desafio. A palavra retumbou na mente de Tomas. Sim, desafio era o que ele buscava. Mas não isso. Não podia ir contra a lei. Até este momento, todas as digressões que tivera em sua vida foram coisas pequenas que todos fazem. Tomas sempre viveu uma vida honesta e se orgulhava de ter se tornado uma referência em sua área agindo dessa forma.

- Sr. Silva – começou a se justificar –, o que o senhor me revelou agora não é uma coisa simples. Talvez seja para o senhor, mas não é para mim. Até onde eu sei, não conheci muitos assassinos em minha vida. Na verdade, a minha história e a minha carreira não possuem manchas. Sou o melhor publicitário do país, mas não sou desonesto. E não sou cúmplice de assassinatos. Seria um grande desafio para mim, sem a menor sombra de dúvida. Mas, infelizmente, não posso aceitar.

Tomas estava levemente nervoso quando falou isso, mas manteve a compostura. Levantou-se da mesa:

- Agradeço a oferta, sr. Silva, mas terá que procurar outro.

Quando se virou para seguir em direção à porta do restaurante, sentiu um puxão em seu braço. Olhou para baixo e viu a mão gigantesca de Rogério segurando seu pulso. O assassino o encarava. Mesmo sem mudar de expressão ou alterar o tom de voz, o olhar de Rogério agora era aterrorizante.

- Sr. Berger, não faça isso. Garanto que o senhor não quer virar as costas para mim.

Tomas olhou em volta. Ninguém os observava. Todos os outros clientes e os garçons seguiam interessados em seus próprios afazeres. Eram apenas os dois.

Receoso do que Rogério pudesse fazer, Tomas sentou novamente. Assim que o assassino soltou seu braço, sentiu que tremia.

- Fico muito surpreendido que um homem inteligente como você ache que isso possa terminar assim – disse Rogério. – Deixe-me explicar para você mais literalmente: você vai me trazer soluções para esse problema, queira ou não.

- Sr. Silva, eu não posso.

- Pode – Rogério não se exaltava. Mantinha a voz calma e, talvez por isso, era ainda mais ameaçador. – Pode, sim. E vai. Não se esqueça do que eu faço para viver. E eu sei onde você trabalha, onde você mora, que lugares frequenta. Sei que você mora sozinho e não possui família ou filhos. Não iria revelar o que revelei e depois deixá-lo simplesmente sair andando por aquela porta sem saber tudo sobre você.

Tomas se arrependeu de ter subestimado Rogério. Finalmente, percebeu que estava em uma verdadeira enrascada. Não havia como escapar. Teria que ceder. Tinha diante de si um assassino, que poderia arruinar a sua vida caso se negasse a colaborar. Nada tinha a fazer.

Respirou fundo e disse:

- Como vamos fazer?

Pela primeira vez, Rogério abriu um sorriso. Mesmo que gélido, era uma expressão de satisfação, de vitória.

- Hoje é terça-feira – falou Rogério. – Vou dar a você uma semana. Na próxima terça, entrarei em contato novamente para marcarmos outro encontro e você me apresentar as ideias. Ideias não, soluções.

Tomas concordou com a cabeça. Rogério se levantou.

- Não se preocupe, sr. Berger. Se o senhor cooperar, não haverá problemas.

Rogério esticou a mão. Tomas levou alguns instantes para notar que o outro homem o cumprimentava. Apertou a mão de Rogério, enquanto ele disse:

- Sr. Berger, foi um prazer fazer negócios com você.

A motivação - Parte 6

6.

A praça de alimentação do NeuShopping não estava lotada, como era de se esperar no meio da tarde. Em uma mesa bem no canto, Tomas Berger podia ser encontrado sozinho, com um copo de chopp gelado à sua frente, que diminuía com mais velocidade que ele gostaria.

Tomas costumava fazer isso de vez em quando. Esse era o seu processo criativo. Ao invés de ficar parado diante do computador, ele preferia estar em um local cheio de pessoas. Desde seus primeiros anos na profissão, Tomas Berger aprendeu que a publicidade eficiente é aquela que fala diretamente para cada pessoa e, por isso, sabia que observá-las podia ser uma incrível fonte de inspiração.

No momento, Tomas tentava encontrar uma solução para a posição complicada na qual se metera. Na realidade, não buscava uma saída para a situação em si. Já aceitara que teria que fazer o que Rogério Silva pedia. O que Tomas tentava achar, ali, observando as pessoas e tomando o seu chopp, era uma ideia fantástica que solucionasse o problema de comunicação de seu mortífero cliente.

Não era fácil. Tudo o que Tomas pensava esbarrava em questões éticas e legais. Tinha certeza de que uma campanha de massa era inviável e agora buscava caminhos através de ações dirigidas, que encontrassem possíveis clientes e falassem diretamente com eles. Sabia ser esse o caminho correto, mas ainda não chegara à grande sacada que poderia salvar a sua vida.

Entre um gole e outro, Tomas olhava à sua volta. Às quase quatro horas da tarde, o shopping era povoado basicamente por adolescentes e mulheres que não tinham muito a fazer além de gastar o dinheiro dos maridos. Tomas desprezava esse tipo de gente. Era quase um paradoxo: ele, um dos mais brilhantes publicitários de todos os tempos, responsável diretamente por aumentar o desejo de compra em milhares de pessoas, não suportava quem era afetado pelo consumismo.

Tomas, na verdade, não era o mais social dos homens. Tinha boas amizades, mas não aguentava a falta de inteligência e jamais se ligara emocionalmente a qualquer outra pessoa. Era por demais exigente. Seus casos com mulheres famosas eram lendários e Tomas não sentia a menor falta de ter uma esposa, filhos ou uma família. Ele se bastava e sempre havia sido assim.

Foi exatamente quando pensava nestes assuntos que Tomas Berger encontrou a solução que tanto procurava. A ideia, a iluminação, surgiu à sua frente. De repente, tudo ficou claro. Tudo entrou nos eixos. Sabia como resolver o problema de Rogério Silva e, consequentemente, resolveria o seu também.

Com a mente trabalhando em velocidade, terminou em um só gole o restante do chopp que havia em seu copo e partiu, apressadamente.